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Marinês Busetti Atelier

Farroupilha - RS

Contato: marinesbusetti1234@gmail.com

   (54) 99951-1138 

 

 
 

Textos e críticas

O PRINCÍPIO DA ARTE DE MARINÊS BUSETTI

por Paulo César Ribeiro Gomes

 

A obra de Marinês Busetti (Farroupilha, RS, 1958) está inscrita na longa tradição de qualidade da gravura no Rio Grande do Sul, iniciada nos anos 1940. Participando da vertente que denomino “Abstrações” (GOMES, 2018), produção surgida nos anos 1960, de matriz abstracionista geométrica, de pouca tradição entre nós, com obras fundadas no apreço pela geometria (Concretismo) e na percepção visual (Gestalt). Dentre os poucos artistas locais que se dedicaram a esse universo, podemos citar, principalmente, Rose Lutzenberger (1929), Luiz Barth (1941-2017) e Rubens Galant Costa Cabral (1928-1989). Não que a obra de Marinês seja tributária desses artistas, pois sua obra teve pouca visibilidade e escassa circulação e, naturalmente, não chegou a fazer escola nem formar grupo de seguidores. Talvez nisso esteja o maior estranhamento de sua obra: Marinês se dedica à produção de imagens geométricas, uma experiência solitária e de exceção, o que lhe dá um lugar de destaque dentre os valiosos gravadores contemporâneos.

Então, de onde vem sua obra? Do construtivismo brasileiro, do geometrismo internacional e das referências inequívocas de M.C. Escher (1898–1972), gravador com obra de grande circulação midiática no Brasil desde a década de 1970.

A obra de Marinês parte do princípio de priorizar o ver em detrimento do olhar. O ver é inquisitivo, voluntário, dirigido, preciso, certeiro; o olhar é superficial, mero registro de existência das formas. Ver “es mucho más que mirar. La visión es algo más que um simple registro mecánico, no es pasiva. El ver implica observar captando las diferencias visibles, salir al encontro de los objetos, explorarlos activamente y saber apropriarse de as características fundamentales que hacen el objeto” (CRESPI;FERRARIO, 1971, p. 104). Se o olhar é automático e involuntário, o ver é programático e demanda envolvimento.

Marinês faz xilogravuras, e Anico Herskovits explica que xilogravura “é o corte de uma imagem sobre madeira e o resultado de sua estampagem sobre papel ou outro material” (HERSKOVITS, 1986, p. 12), uma definição precisa e direta. Dito isso, vamos adiante. Do ponto de vista da construção das imagens, a artista trabalha prioritariamente por módulos, da mesma forma que suas contemporâneas Maria Lucia Cattani (1958–2015), na gravura em metal, e Liana Timm (1947), nas imagens digitais. Marinês cria módulos como uma espécie de protoforma, que pode ser associada a outras idênticas (pois são oriundas da mesma matriz), em montagens que chegam ao limite do improvável em se tratando de gravuras.

Esse apreço pelo módulo fundador, que se desdobra no gosto pelas grandes formas, eleva a unidade como parte intrínseca da totalidade. Não por acaso, os títulos de seus trabalhos indicam esse fascínio pela repetição articulada, em referências aos princípios do origami (como o cisne), do fractal ou do caleidoscópio, modelos modulares que se configuram como ponto de partida para experimentos de intensa vibração visual. Naturalmente, isso nos leva, também, a pensar nos tradicionais azulejos, sequências compostas por unidades idênticas. No entanto, Marinês parte da unidade autônoma, que não tem em si a característica modular do azulejo, pois não depende da peça ao seu lado para compor padrões. A artista cria suas imagens por composição, isto é, partindo de uma unidade que, associada à outra, igual ou assemelhada, constitui um novo elemento, conforme podemos ver em obras de grande formato (240 x 80cm), como Fractal, Variação I (2009).

Perguntamo-nos: “ainda é gravura o que vemos?”. Se formos partir do princípio canônico da gravura, a peça originada na matriz, repetida de modo idêntico e de maneira programada (tiragem) não é mais gravura; entretanto, se tomarmos o princípio da reprodutibilidade, ou seja, “todos os procedimentos manuais, mecânicos e eletrônicos de multiplicação ou cópia de um modelo como, também, a obra produzida por meio de reprodução” (JANSEN, 2018, p. 18), então sim, temos a matriz gravada e, consequentemente, a gravura.

A artista usa a matriz como ponto de partida para chegar às composições complexas e articuladas. Para melhor compreendermos, é necessário acatar o princípio da persistência, seu modo de manter-se fiel a um modo de operar e a um modelo de construir, trabalhando com o mínimo (uma matriz, uma cor, uma orientação formal) para alcançar a potência máxima da forma. Dessa forma, sendo adepta de uma técnica — a xilogravura—, sem ceder à tentação de variar. Perguntamo-nos: “por que não ceder à facilidade proporcionada pelos recursos digitais?” Pois, sujar as mãos, sacrificar o conforto muscular e persistir no modo primevo é distintivo de sua obra.

Estamos frente ao caso complexo de uma artista coerente e, ao mesmo tempo, contraditória. Suas grandes composições (chamo-as assim por falta de melhor denominação) são gravuras, mesmo que sejam gravuras só na unidade, pois, nos desdobramentos, a artista recorre à colagem, ao desenho e mesmo à pintura. É a gravura expandida ou como ponto de partida (e não de chegada). Não há uma ruptura com o conceito de gravura que nos deixe desconfortável em continuar chamando-as dessa forma, pois o princípio fundador da arte de Marinês Busetti é a gravura, seja pelo pensamento fundador, pelos princípios construtivos, pela multiplicidade ou mesmo pela inequívoca fidelidade ao meio.

 

Paulo César Ribeiro Gomes

Artista visual e professor na UFRGS

 

Referências

CRESPI, Irene; FERRARIO, Jorge. Léxico Técnico de las Artes Plásticas. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos, 1971.

GOMES, Paulo César Ribeiro. Aspectos da Produção Gráfica no Rio Grande do Sul/Aspekte Der Grafik-Produktion in Rio Grande do Sul. In: O Poder da Multiplicação – Arte reprodutível na América do Sul e na Alemanha: do pré-digital ao pós-digital ou da gravura, passando pelo xerox, até o 3D. São Paulo/Berlim: Estação Liberdade &Kerbe, 2018.

Disponível em: https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/sup/art/esy/21185845.html. Acesso em: 14/09/2019.

 

HERSKOVITS, Anico. Xilogravura Arte e Técnica. Porto Alegre: Tchê!Editora Limitada, 1986.

JANSEN, Gregor. O poder aurático da recíproca multiplicação na América do Sul e na Europa. Arte reprodutível: do pré-digital ao pós-digital ou da gravura, passando pelo Xerox, até a realidade virtual. In: O Poder da Multiplicação – Arte reprodutível na América do Sul e na Alemanha: do pré-digital ao pós-digital ou da gravura, passando pelo xerox, até o 3D. São Paulo/Berlim:Estação Liberdade &Kerbe, 2018.